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De Velho a Ramos: quando a genealogia se encontra com a história de Santa Catarina


Nereu Ramos, único catarinense a se tornar presidente do Brasil, entre 1955 e 1956.
Nereu Ramos, único catarinense a se tornar presidente do Brasil, entre 1955 e 1956.


Há livros que contam uma história. E há livros que salvam uma história do esquecimento. De velho a Ramos: um estudo genealógico sobre a presença da família Ramos em Santa Catarina, escrito por Maria do Carmo Ramos Krieger e Sergio R. O. Goulart Filho, pertence à segunda categoria — e faz isso com rara profundidade.


A obra reconstitui, com rigor documental e sensibilidade narrativa, a trajetória de uma das famílias mais significativas do estado catarinense. Mas o faz de uma maneira que transcende o relato genealógico tradicional, transformando-se em uma reflexão sobre identidade, memória e pertencimento. É um livro que nos lembra que cada sobrenome carrega séculos de história — e que reconstituir essa história é um ato de resistência cultural.


Quem é Maria do Carmo Ramos Krieger — e por que sua trajetória importa


Maria do Carmo Ramos Krieger não é uma estreante no campo da pesquisa histórica. Sua trajetória como pesquisadora e autora é marcada por contribuições consistentes na área dos estudos genealógicos e da preservação da memória familiar catarinense. Contudo, De velho a Ramos representa um ponto de inflexão em sua obra — não apenas pela abrangência do trabalho, mas pelo caráter pessoal que o atravessa.


A autora é descendente direta da família Ramos e, ao longo de anos de pesquisa em arquivos públicos, cartórios, bibliotecas e registros paroquiais — dentro e fora do Brasil —, conseguiu reunir documentação suficiente para reconstituir uma árvore genealógica que se estende por mais de cinco séculos. O trabalho que agora chega ao público é fruto de uma dedicação que mescla rigor acadêmico e compromisso afetivo com suas origens.

Mais do que uma genealogista, Maria do Carmo se coloca como uma guardiã de memórias. Seu percurso demonstra que a pesquisa genealógica, quando bem feita, deixa de ser um exercício de curiosidade pessoal e se transforma em um registro histórico de valor coletivo.


Um livro que inova no olhar sobre a genealogia

O que diferencia De velho a Ramos de outras obras genealógicas? A resposta está na abordagem metodológica adotada pelos autores. O livro não se limita a listar nomes, datas e parentescos — ele insere cada geração em seu contexto histórico, político e social, construindo um verdadeiro painel da história catarinense a partir da trajetória de uma família.


A pesquisa utiliza conceitos da micro-história, corrente historiográfica que parte do estudo de casos particulares para compreender fenômenos históricos mais amplos. Nessa perspectiva, a família Ramos não é apenas um objeto de estudo em si mesma, mas uma lente através da qual é possível enxergar processos fundamentais da formação do Brasil meridional: a imigração açoriana, o tropeirismo, a ocupação do planalto catarinense e as redes de parentesco que estruturaram a sociedade local.


Os autores também inovam ao situar a origem da família em um cenário global. A pesquisa remonta ao ano de 1453, com a queda de Constantinopla — um evento que desencadeou transformações profundas no mundo conhecido e que, indiretamente, moldou os fluxos migratórios trariam os futuros membros dos Ramos ao Brasil. Dali, o livro percorre gerações sucessivas até chegar aos descendentes contemporâneos em Santa Catarina, estabelecendo uma ponte entre história mundial, história nacional e história familiar.


A família Ramos e sua presença na história de Santa Catarina

A presença da família Ramos em Santa Catarina está entrelaçada com a própria história do estado. Os primeiros registros remontam ao período da colonização açoriana, quando imigrantes das ilhas dos Açores foram trazidos para povoar o litoral catarinense no século XVIII. A família se estabeleceu, inicialmente, em regiões como o Desterro (atual Florianópolis) e, posteriormente, expandiu-se para o planalto serrano e o oeste do estado.


O livro documenta o papel dos Ramos nas atividades do tropeirismo, que por séculos foi a espinha dorsal da economia do Sul do Brasil. Os tropeiros — condutores de tropas de mulas e gado que ligavam o Rio Grande do Sul a São Paulo e Minas Gerais — eram figuras centrais na circulação de mercadorias, informações e cultura. Muitos membros da família Ramos atuaram nesse comércio, estabelecendo as primeiras rotas que dariam origem a cidades inteiras.


Ao longo dos séculos XIX e XX, os Ramos se disseminaram por diversas regiões de Santa Catarina, contribuindo para a formação de comunidades em municípios como Lages, São Joaquim, Urubici, Campos Novos e Curitibanos. A pesquisa de Maria do Carmo e Sergio Goulart Filho resgata nomes, datas e, sobretudo, histórias de vida que de outra forma se perderiam no tempo.


Por que este tipo de obra importa hoje


Vivemos uma era de aceleração e descarte. Nunca a memória foi tão frágil — e tão necessária. Em um mundo em que as relações se tornam cada vez mais líquidas e as identidades, voláteis, o trabalho de reconstituição genealógica oferece uma âncora. Saber de onde viemos não é apenas um exercício de nostalgia: é uma forma de nos situarmos no presente e projetarmos o futuro.


O livro de Maria do Carmo e Sergio representa um ato de continuidade. Dá sequência ao trabalho de resgate cultural que a autora iniciou há décadas e que agora se materializa em uma obra acessível não apenas a especialistas, mas a qualquer pessoa interessada em entender a formação da sociedade catarinense. É também um convite à reflexão sobre a importância de preservarmos os registros familiares — fotografias, cartas, documentos — antes que o tempo os apague.


A genealogia, quando praticada com a seriedade que caracteriza esta obra, deixa de ser um hobby de curiosos e se torna uma ferramenta legítima de produção de conhecimento histórico. É, antes de tudo, um ato de justiça com aqueles que vieram antes de nós e abriram os caminhos que hoje percorremos.


Uma obra que merece ser conhecida


De velho a Ramos: um estudo genealógico sobre a presença da família Ramos em Santa Catarina é mais do que um livro de genealogia — é um documento histórico, um testemunho de memória e um ato de amor à história catarinense. A obra chega ao público em um momento em que a discussão sobre identidade e pertencimento nunca foi tão urgente.


Para descendentes da família Ramos, o livro é, evidentemente, uma fonte inestimável de informação sobre suas raízes. Mas para todos os catarinenses — e para qualquer pessoa interessada em história do Brasil —, a leitura oferece uma oportunidade rara de compreender, a partir de um caso concreto, como se formaram as redes de parentesco, poder e cultura que moldaram o Sul do país.








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